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IMPACTOS PSICOLÓGICOS NA ATIVIDADE AÉREA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Artigo escrito pelo comandante de linha aérea Hilton Rayol, um estudioso e pesquisador dos fatores humanos.


IMPACTOS PSICOLÓGICOS NA ATIVIDADE AÉREA EM TEMPOS DE PANDEMIA

O presente artigo tem como objetivo abordar os impactos psicológicos que foram provocados com a chegada do coronavírus na atividade aérea. O intuito deste trabalho é apresentar aspectos que envolvem a vida do tripulante no cumprimento de suas obrigações a bordo de aeronaves, e os impactos que o mundo vem sofrendo com a chegada da quarentena, principalmente, os aspectos psicológicos e psicossociais identificados nesta pandemia que o mundo vem enfrentando.

De imediato, o isolamento social como a principal recomendação das autoridades de saúde mundial, a fim de evitar a propagação do coronavírus, causador da Covid-19. A medida, no entanto, impôs às pessoas uma mudança radical no estilo de vida. Somando-se ao medo de ser contaminado, a impossibilidade do contato físico, entre outros fatores, a situação acaba trazendo transtornos também à saúde mental da população.

Tem se discutido sobre os impactos psicológicos da quarentena para pessoas evoluídas, bem como possíveis formas de atenuá-las. De acordo com Brooks (2020), foi constatada uma maior prevalência de respostas emocionais negativas entre as pessoas que estiveram em quarentena, como “medo”, “tristeza”, “culpa”, “confusão”, “raiva”, “humor baixo”, “irritabilidade”, “ansiedade”, “insônia”, dentre tantas outras.

Outra característica é a angústia, que pode ser definida como medo do desconhecido, medo este que dá a sensação de que algo vai acontecer. É uma sensação desagradável, com a qual o ser humano se depara sempre quando se coloca diante de uma situação onde não tenha controle direto e total dos fatos.

Principais fatores de estresse durante e após a quarentena.

De acordo com Brooks (2020), em fevereiro deste ano, foram identificados cinco principais fatores de estresse durante o período de quarentena, sendo eles:

– a duração da quarentena;

– o medo de infecção;

– a frustação e tédio;

– os suprimentos inadequados;

– as informações precárias.

O primeiro fator refere-se à duração da quarentena e, por isso, faz-se necessário que sejam pensadas estratégias para que o período da quarentena não gere efeitos negativos na saúde mental das pessoas envolvidas.

No que se refere ao medo de infecção, participantes de diferentes estudos, sobretudo mulheres grávidas ou com crianças pequenas relataram temores sobre suas próprias saúdes ou medo de infectarem outras pessoas, principalmente membros da família.

O confinamento, a perda da rotina habitual e a redução do contato social e físico com outras pessoas foram frequentemente associados ao tédio e à frustação, bem como à uma sensação de isolamento do resto do mundo, o que se mostrou como algo angustiante para os participantes durante esse período.

A falta de suprimentos básicos como comida, água, medicamentos etc. também foi uma fonte significativa de frustação durante a quarentena e continuou associada à raiva e à ansiedade mesmo seis meses após o período.

Por fim, o último fator de estresse identificado durante o período da quarentena consistiu na precariedade de informações por parte das autoridades públicas de saúde, em que diversos participantes relataram uma insuficiência de diretrizes sobre ações a serem tomadas e confusão sobre o objetivo da quarentena.iii

Isso foi associado à falta de coordenação entre as múltiplas jurisdições e níveis de governo envolvidos, bem como à falta de transparência dos oficiais de saúde e do governo sobre a gravidade da pandemia. A precariedade das informações tem sido um problema enfrentado no Brasil desde as primeiras semanas de sugestão de quarentena. As incongruências dos dados fornecidos pelo Estado não ofertam segurança à população para que as medidas de segurança permaneçam.

No que se refere aos fatores de estresse após o período de quarentena, destacam-se as questões relacionadas às finanças. Isso porque a perda financeira pode ser um problema significativo durante a quarentena, e seus efeitos parecem se estender por meses após, gerando grave sofrimento socioeconômico e, consequentemente, psicológico. Isso se agrava nos casos de profissionais autônomos, que se tornam incapazes de trabalhar e precisam interromper suas atividades profissionais sem planejamento avançado.

Estudos que foram feitos por especialistas na área de psicologia relataram os sintomas psicológicos que estão relacionados com as fases da epidemia. A primeira fase é caracterizada por uma mudança radical de estilo de vida.

Quanto a atividade aérea, sabemos que o elo mais flexível, frágil e vulnerável ainda é o fator humano. Todo tripulante deve desenvolver as suas competências comportamentais que são fundamentais para o exercício da função, dentre elas estão a assertividade, resiliência, autocontrole, relacionamento interpessoal, trabalho em equipe, liderança, proatividade, organização, praticidade, comunicação, tomada de decisão, entre outras.

E na atividade aérea, os aeronautas possuem um sistema de trabalho em que há uma inconstância nos horários de trabalho, que pode ser observado por meio de uma escala de voos mutáveis, trabalhos realizados em períodos noturnos, entre outros. Esta volubilidade repercute na saúde desses profissionais e acarreta sérios problemas sociofamiliares.

Mediante o exposto e de acordo com as pesquisas que foram realizadas na construção deste artigo, podemos observar alguns aspectos que são importantes, e que devem ser monitorados pelos tripulantes durante a jornada de trabalho. Um dos fatores diz respeito ao Estado Emocional que é responsável por 14,37% da contribuição do aspecto psicológico na aviação. Toda atividade que envolve riscos em sua execução necessita que o operador aprenda a lidar com as emoções de modo a não comprometer a segurança, durante o desempenho da tarefa, principalmente nas situações de emergência, onde a mobilização emocional é muito intensa e, de acordo com as características individuais, pode levar à uma reação apressada, lenta ou até mesmo ao bloqueio de qualquer reação.vi

Uma outra condição é a ansiedade elevada, principal aspecto contribuinte nessa área, que prejudica a percepção, o julgamento e, consequentemente, a tomada de decisão e a ação do indivíduo.

Um fator causador de estresse e fadiga é o elemento medo. Componente indissociável da profissão dos aeronautas. O medo é um sentimento que é um estado de alerta demonstrado pelo receio de fazer alguma coisa, geralmente, por se sentir ameaçado, tanto fisicamente quanto psicologicamente.

O desgaste psicológico dos aeronautas civis advém, portanto, da submissão a constantes estresses, sejam esses provenientes do ambiente de trabalho ou da responsabilidade atribuída em suas mãos.

Podemos observar que os fatores citados envolvendo os aspectos psicológicos que impactaram nesta pandemia trouxeram sérias consequências para a vida de todos nós. Inclusive, o estudo que foi apresentado por um especialista descreve os principais fatores de estresse durante a quarentena e, dentre eles, gostaríamos de destacar três pontos interessantes, sendo eles: medo de infecção, frustação e tédio.

E fazendo uma correlação com a atividade aérea, os principais tópicos que abordamos na vida do tripulante apontam para a fadiga e os aspectos psicossociais que podem influenciar na causalidade de acidente.

Em relação à fadiga, esse é um fator de extrema importância para a atividade dos pilotos e sua causa é observada devido a inúmeros agravantes como, por exemplo: a elevada carga de trabalho, déficit de sono, mudanças nos fusos horários, turnos irregulares,

incluindo o trabalho de madrugada. Portanto, se conclui que o aumento da fadiga gera mudanças de humor, estresse e pode ser identificado como possível causa para acidentes de trabalho.

Em relação aos aspectos psicossociais, foi identificado que os desgastes psicológicos são resultantes da submissão a constantes estresses. Além disso, vem à tona o fator da psicodinâmica do trabalho, ou seja, devido aos constantes avanços tecnológicos, a execução da atividade do piloto deixou de ser uma satisfação para um sofrimento em relação ao seu estado mental, já que, seu trabalho está cada vez mais sistemático.

Por fim, embora o elemento humano seja o componente mais adaptável do sistema de aviação, esse é influenciado por muitos fatores que afetarão o desempenho humano, como fadiga, perturbação do ritmo cardíaco, privação do sono, saúde, estresse e outros que afetem sua integridade e bem-estar. Outros fatores, ao assumirem valores extremos ou anormais, também afetam o desempenho, entre eles os causados por restrições ambientais, como temperatura, ruído, umidade, luz, vibração ou por restrições funcionais como horário de trabalho e carga de trabalho.

Finalizamos, alertando para as mudanças que vêm ocorrendo no mundo com exigências e o cumprimento de protocolos que influenciam todo o comportamento do ser humano diante de uma pandemia. O setor aéreo foi uma das atividades que foram afetadas com esta pandemia, sobretudo, com os cuidados que os tripulantes devem ter com a saúde e a qualidade de vida, principalmente no que diz respeito às recomendações estabelecidas pelos órgãos competentes, monitorando a jornada de trabalho e as alterações que direcionam ao estresse, podendo influenciar em outros fatores durante as operações de voo e, assim, impactando psicologicamente o aeronauta de alguma forma.

 

Artigo escrito pelo Comandante Hilton Rayol:

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