×
ArabicEnglishFrenchItalianJapanesePortugueseSpanish

Aviação Comercial

Por que as aéreas devem enfrentar mais turbulência antes da recuperação

Atraso na vacinação e aumento recente de casos de covid-19 jogam nuvem de incertezas nos planos de retomada


Por que as aéreas devem enfrentar mais turbulência antes da recuperação

O ano de 2020 foi como um daqueles voos turbulentos intermináveis, em meio a um mar de incertezas provocadas pela pandemia de covid-19. No cenário de descrença global, as ações das companhias aéreas despencaram nas bolsas de valores mundiais e a recuperação do setor se apoia totalmente nas notícias que apontam para o fim da crise. Há de se pensar, então, que o início da vacinação em diversos países garantirá à aviação uma decolagem para patamares pré-pandemia. Mas ainda há obstáculos no trajeto de retomada.

No Brasil, o início da vacinação é incerto. Desgastes entre a União e os Estados geram dúvidas sobre quando e como a imunização será feita nacionalmente. Não se sabe, por exemplo, quais vacinas serão disponibilizadas à população, e se há insumos, como agulhas e seringas, suficientes. Essa confusão vai continuar prejudicando a operação internacional das aéreas brasileiras, uma vez que diversos países ainda estão restringindo a entrada de pessoas vindas do Brasil. E sem vacinação, o fim dessa imposição fica mais distante.

Enquanto a solução mais eficaz contra a pandemia não é posta em prática, os casos não param de crescer. Ao todo, já são mais de 201 mil mortes e mais de 8 milhões de casos da doença. No mundo, a covid-19 já matou mais de 1,9 milhões de pessoas, segundo a Universidade Johns Hopkins.

“O comportamento das aéreas vai estar muito associado à normalização da vida das pessoas, e que por sua vez está relacionada à disponibilização de uma vacina”, afirma Ricardo França, analista da Ágora Investimentos.

Em meio ao cenário de aumento de casos, é possível ainda que o quadro do setor possa piorar antes de se restaurar. “No curto prazo, pode haver uma turbulência maior”, avalia França.

Para o analista, as empresas conseguiram realizar um bom trabalho durante o período de crise, na verdade um enorme desafio: manter os custos altos, sendo boa parte em dólar, com a operação completamente prejudicada pela redução e até interrupção total de voos.

De modo geral, os analistas ouvidos pelo E-Investidor concordam que, mesmo que o setor tenha recuperado boa parte das perdas acumuladas no último ano, ainda há muito trabalho pela frente. As dívidas das companhias, por exemplo, ainda são elevadas e, recentemente, a alta do petróleo afetou os custos, já que o preço do querosene para a aviação também encarece.

Portanto, a retomada deve ser mais concreta a partir do segundo semestre de 2021, pelo menos, e se as medidas para o fim da pandemia se mostrarem eficazes no País.

“Quem estava achando que o setor vai recuperar o nível de 2019 até o meio do ano, pode jogar o prazo para frente”, avalia Mario Mariante, analista-chefe da Planner Investimentos. “Não vejo recuperação no início deste ano porque o primeiro trimestre está altamente comprometido. Alguma recuperação só no final do ano e se as coisas voltarem à normalidade”.

Alexandre Jung, head de renda variável da Vero Investimentos, entende que, enquanto houver restrições em relação ao distanciamento social, todo setor sofrerá com redução de passageiros. “Independentemente da forma como é tratado esse distanciamento dentro das aeronaves, as pessoas estão em um ambiente recluso, o que faz com que a maioria ainda prefira outra forma de transporte privado ou, o mais usual, manter o isolamento”, diz Jung.

Como estão os números das companhias

Até novembro de 2020, a demanda global por viagens aéreas domésticas e internacionais caiu 70,3%, em relação ao mesmo período de 2019, segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, na sigla em inglês). Já a oferta de assentos teve redução de 58,6% na mesma comparação, e o aproveitamento das aeronaves recuou 23 pontos percentuais, chegando a 58%.

Os dados internacionais reforçam também o quadro nacional. Em 2020, o tráfego de passageiros consolidado (RPKs) da Azul (AZUL4) caiu 45,5%, enquanto a capacidade (ASKs) caiu 43,1% ante 2019, com a taxa de ocupação recuando 3,6 pontos porcentuais, para 79,9%.

A Gol (GOLL4-4,61%), por sua vez, teve queda de 51,9% no tráfego de passageiros em 2020 ante 2019. A capacidade recuou 50,8% e a taxa de ocupação das aeronaves encolheu 1,9 ponto porcentual, fechando o ano em 80%.

Apesar de ter sido pior no comparativo anual, dezembro também confirmou o ritmo de recuperação recente. A Azul, por exemplo, conseguiu aumentar o tráfego de passageiros em 18,1% ante novembro de 2020 e teve crescimento de 22,5% na capacidade (ASKs), tanto em voos domésticos como internacionais.

Gol teve crescimento da demanda (RPK) para os voos de 33% sobre novembro, enquanto a oferta (ASK) avançou 38%. Os dados da empresa, entretanto, se referem apenas à operação doméstica, uma vez que a companhia ainda não retomou os voos internacionais.

Além disso, as aéreas também estão apostando no compartilhamento de rotas, iniciado no ano passado e que será mantido em 2021. “A Azul fez uma parceria (codeshare) com a Latam, em que as empresas realizam voos de forma conjunta, mesmo após os presidentes de ambas discutirem, de forma agressiva, publicamente, sobre preferência das rotas deixadas pela Avianca, o que demonstra que o setor está fazendo o possível para se manter ativo”, analisa Jung.

A Latam, que não tem capital aberto no Brasil, também passou por um ano difícil, com a empresa entrando em recuperação judicial na Justiça dos EUA. Com dívida de US$ 18 bilhões, a empresa conseguiu captar US$ 2,45 bilhões com credores e acionistas, o que trouxe fôlego para atravessar a crise.

No Brasil, todavia, a empresa enfrentou problemas de redução salarial e demissão de funcionários. Para 2021, a expectativa da Latam é de retomar voos e encerrar a recuperação judicial no segundo semestre.

O que esperar das ações

A recuperação das companhias, como já sinalizado, dependerá de alguns fatores como o sucesso da vacinação e o controle da pandemia, para que, enfim, as pessoas possam ter a confiança de voltar a voar. O retorno da operação internacional também é essencial para que os papéis recuperem os patamares pré-crise.

“As ações vão correspondendo à medida que se tenha um avanço da normalização, e isso só vai vir quando tiver o andamento da vacina”, diz França. “Novas medidas de lockdown ou restrição afetaria o desempenho do setor no curto prazo e talvez interromperia a trajetória de recuperação”.

Mariante observa também que um desdobramento que ainda precisará ser mensurado é a queda de voos a negócios, que, na opinião dele, serão drasticamente reduzidos devido à força que as videoconferências ganharam no home office. “Vai ser um comportamento adotado daqui para frente”, acredita o head de renda variável da Planner.

Outro papel do setor é a Embraer, que atua na fabricação de aeronaves. Para os analistas, a empresa também passou por um cenário adverso, com a paralisação de pedidos potenciais de novos jatos, tanto executivos como comerciais, o que afetou os resultados. A retomada, assim como para as companhias, dependerá do fim da pandemia.

“O segmento de defesa segue o projeto de uma nova aeronave que substituirá o Hercules, cujo investimento foi drasticamente reduzido pelo governo, levando a Embraer a utilizar seu próprio caixa. O movimento foi interpretado de forma negativa pelo mercado, diminuindo o apetite em se posicionar na empresa”, observa Jung.

Na sexta, os papéis AZUL4, GOOL4 e EMBR3 fecharam cotados a R$ 36,60, R$ 23,51 e R$ 8,81, respectivamente. No acumulado de um ano, a Azul tem perda de 35,70%, a Gol, de 34,35%, e a Embraer, 56,67%.

Os analistas ouvidos na matéria ainda estão revisando suas projeções para os preços-alvo dos papéis, dadas as incertezas no setor. A Ágora tem recomendação de compra apenas para Gol e neutra para Azul e Embraer. A Vero tem indicação neutra para as três, e a Planner recomenda a venda dos papéis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por: ISAAC DE OLIVEIRA  publicado no Estadão